Preencha aqui com um título que puxe o saco da Europa ou que mande a Europa se foder

Muit@s estudantes de graduação e pós-graduação possuem o sonho de estudar no exterior, seja para o aperfeiçoamento de uma língua estrangeira, para ter contato com novas bibliografias, ter acesso a bibliotecas mais vastas, ou simplesmente para ter a grande experiência de viver num país estrangeiro. Isso tudo é muito bom e tal, mas na real as coisas podem debandar para problemas psicológicos sérios, síndrome de pânico, alcoolismo, complexo de inferioridade crônico, ou cinismo, afinal dizem que se você se expõe a muito cinismo ele acaba entrando em você por osmose. Meu argumento aqui é que muitas vezes as universidades européias que recebem estudantes internacionais não se esforçam nem um pouco para cumprir o que diz no rodapé de seus emails oficias: quase nenhuma delas realmente acolhe o estudante estrangeiro em sua realidade, ou tem políticas efetivas de garantia de um espaço plural para transmissão de conhecimento de forma não hierarquizada.

A falácia do “multiculturalismo” tornou-se ferramenta de retórica bem apropriada nessa fase do processo (outra falácia) de “globalização”. Não sou só eu que digo que a ideia de multiculturalismo é uma falácia; os premiers do Reino Unido e da Alemanha assumiram publicamente que esse projeto realmente não se fez existir. A nova ferramenta retórica, a dita “crise econômica”, tem como um dos efeitos um aumento considerável de casos de racismo e xenofobia. No Reino Unido, a presença de cidadãos poloneses é vista como um problema para uma parte da população que acredita, sem fundamento algum, que muitos cidadãos poloneses estariam vindo para ocupar seus empregos, leia-se os sub-empregos. No site do ministério de assuntos externos do Reino Unido, por exemplo, consta que a grande maioria dos expats trabalham em sub-empregos; leia-se: existem muitos e muitos casos de pessoas que falam cinco línguas, têm pós-graduações e tudo mais, mas por ser estrangeiro termina lavando carro, cada um a três libras. Na prática, imigrante é um sinônimo de polonês, ou vice versa porque a idéia é a mesma de um bode expiatório, e não importa se você é africano, romeno ou brasileiro: é tudo polonês. Na Holanda, há anos se vê nas vitrines das agências de emprego os dizeres (em holandês): emprego só para cidadãos holandeses. A situação seria compreensível se esses países não tivessem crescido economicamente à custa do que eles mesmos chamam de “terceiro mundo”, e não estou falando só da colonização antiga. Vamo combinar que esse termo,”terceiro mundo” é no mínimo cafona. Colonização, síndrome de nariz empinado, “temos raízes e somos o berço da civilização”, sangue azul, “somos uma democracia livre (hahahaha)” … que coisa mais brega. Agora a Europa Ocidental envia seus reitores e primeiros ministros para solicitar parcerias no “terceiro mundo”. No ano de 2012, o primeiro ministro David Cameron, do Reino Unido, esteve no Brasil em viagem de “negócios”, e trouxe com ele a reitora da Universidade de Saint Andrews, uma das universidades mais prestigiadas no Reino Unido. A reitora esteve em negociação para motivar o envio de estudantes brasileiros para a universidade através do programa Ciência sem Fronteiras.

O problema é que a Universidade de Saint Andrews não está preparada para receber alunos internacionais; pelo menos aqueles que não se conformam em replicar o modelo baseado na forma, e não no conteúdo. Um dado curioso é que estudantes brasileiros na Europa são geralmente caracterizados como “bons de teoria”, o que considero algo positivo, posto que aqui no Brasil temos essa força estranha que nos empurrar a depreciar tudo no país. Sim, estou dizendo que mesmo com a desorganização, falta de professores e algumas péssimas instalações e estrutura, a universidade brasileira cumpre muito mais o papel de desenvolvimento intelectual do que as universidades “top”. Um ponto negativo é que dominamos mais do que deveríamos modelos teóricos europeus, e teorizamos pouco sobre nós mesmos. Mesmo assim é importante destacar pelo menos dois pensadores bastante reconhecidos internacionalmente: o vice-presidente da Bolívia e matemático-sociólogo Álvaro García Linera; e o antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro, grande referência na área. É ponto pacífico que precisamos de pessoas que pensem e teorizem a América Latina, mas é possível também afirmar que temos um complexo de inferioridade sem sentido, que também é reforçado pelas convivências em universidades européias.

É fato que é necessário falar a língua do país para onde iremos estudar, mas é importante pensar em alguns aspectos: qual é o perfil de estudantes brasileiros habilitados a embarcar numa aventura dessas e que tenha total domínio do idioma estrangeiro? Resumo assim: gente com grana. E gente com grana geralmente não teoriza sobre desigualdade social, por exemplo. Não julgo essa afirmação como preconceito, basta alguém de bom senso fazer uma pesquisa básica sobre o que brasileir@s com grana pesquisam. Alguns até tentam, mas fazem uma abordagem tipo européia, folclorizando aspectos como a pobreza e o racismo. Nessa onda, se você, pobre mortal, tiver a “sorte” de conseguir uma bolsa de estudos para ir estudar na Europa, prepare o espírito. Se você não for branc@, ric@ e não se comportar como um “europeu”, desculpa o linguajar ai, mas você tá fudido. Se teu sotaque não for perfeitamente escocês, por exemplo, você pode ser humilhado em plena sala de aula na frente dos coleguinhas. Se seu inglês (ou a língua do lugar) foi aprendido nesses cursinhos meia-boca-caça-níquel aqui no Brasil, suas notas serão muito menores, por mais que você tenha um embasamento teórico e ideias originais, e você poderá ainda ouvir de alguém que não conhece Viveiros de Castro que “você está em óbvia desvantagem”, também em público, porque humilhação pouca é bobagem né? Se você quiser alugar um apê fora da universidade (que geralmente oferece as opções de moradia mais caras e de pior qualidade) e os atendentes sacarem que você é estrangeiro e estudante, esqueça, fi. Você vai passar 30 minutos tentando chamar atenção dos atendentes, muitas vezes sem resultado pra eles, pra você vai resultar em ódio. Resumindo: você e seu dinheiro são bem-vindos desde que você pense e pareça como um europeu, senão você tá fudido.

Um fato é que esse tratamento é destinado não somente para os brasileiros, e por isso talvez seja mais fácil se relacionar com alguns estudantes estrangeiros também, salvo alguns que se acham nativos, mas não passam de baba-ovos. Esses ai costumam ser piores que os nativos em termos de arrogância e burrice. Existem também aqueles que se sentem oprimidos pela língua, pelas convenções, entre outras coisas, mas acham que têm culpa por não serem “civilizados” o suficiente, e que acham que precisam se “adaptar”. Esses ai são os primeiros apelar para os remedinhos: prozacs, ritalinas para estudar, rivotril para dormir. Saudável, né? E tem aqueles que tendem a questionar um pouco mais as convenções do lugar, afinal na semana de apresentação todo mundo foi legalzinho e disse que a universidade é “multicultural”, mas no dia-a-dia essa multiculturalidade se transforma em olhares e atitudes hostis quando você acha que pode conversar honestamente com os colegas, ou quando as pessoas que pareciam legais passarem quase na sua frente e não te cumprimentarem. Conversa no Reino Unido é falar do tempo; fora isso, é se “expor demais”, é “demonstrar fraqueza”. Bom, para esse último, o jeito vai ser viver bêbado, e tentar estudar e conviver com a hipocrisia ao redor de forma a evitar danos maiores. Nem sempre é possível, porque para alguns, além das humilhações e maus-tratos na universidade, tem a cidade. É, amiguinhos, que querem morar na Holanda, melhor começar a estudar holandês se não quiser que as velhinhas no supermercado virem a cara para você enquanto você pega o produto na prateleira mais alta que ela mesma pediu em holandês, mas você respondeu em inglês. Pecadéssimo. Assim como se você não falar holandês perfeitamente, as atendentes de loja de sapatos vão te apresentar os sapatos mais baratos naquela instiga maldita de humilhar alguém gratuitamente. Só pra manter o hábito. O tal país super liberal é na verdade uma comunidade predominantemente conversadora, que vêem os coffee shops e o red light district como caça-níqueis e só. Você é bem-vindo se ficar concentrado na zona central completamente controlada e feita para turista-ver. Adentrar os espaços comuns com as famílias nativas de bem pode ser perigoso para sua auto-estima e integridade física.

Não quero desencorajar ninguém, vai quem quer e com certeza ir é uma experiência rica. Mas esteja preparado ou para naturalizar o processo de colonização em que você se envolverá, ou será bem vindo num imenso grupo de pessoas com transtornos mentais e depressão. Próximo post sobre o mesmo assunto em breve.

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Por uma academia menos autoritária e mais anarquista

Uma boa parte das pessoas que embarca na vida acadêmica sonha em mudar o mundo a partir de um artigo, de um projeto ou dissertação. Esses não necessariamente se configuram como “produção de conhecimento”, mas evidências de um processo de formação intelectual, e obviamente pessoal. Não quero dizer com isso que pesquisas e escritos não sirvam de nada, embora algumas realmente não sirvam a nenhum projeto necessário, posto que alguns pouc@s intelectuais se coloquem a serviço de um projeto maior de anulação das opressões e desigualdades sociais. Enfim, gostaria de focar um ponto: existe na academia uma estrutura de níveis de arrogância e perpetração de violência “simbólica” a que tod@s estamos expostos no decorrer de nossas “carreiras” (pode-se notar que boa parte das aspas estão em expressões em tese comuns, mas aqui as considero como parte da retórica arrogante de alguns acadêmic@s ). Qual é a contribuição para o desenvolvimento intelectual que as humilhações cotidianas que muit@s enfrentam nos departamentos de universidade trazem ? Nenhuma. Estamos dando continuidade a um círculo vicioso que produz e reproduz opressão. Isso é compreensível: por mais que celebremos avanços democráticos, o autoritarismo e vaidade ainda são valores que cortam a sociedade, e obviamente a universidade, em diferentes níveis. Por que temos de ser humilhad@s em bancas, em concursos, em relações em geral dentro do ambiente acadêmico? Se existe uma prerrogativa de aplicação de poder, está lá a indiferença ao outro enquanto ser social. A única vez que tentei fazer um concurso para professora numa universidade, antes mesmo de abrir a boca, a banca já me olhava como se eu fosse um saco de lixo rasgado e fedendo no meio da sala. Desculpa o drama aí, mas os não-ditos também nos afetam, e foi exatamente assim que me senti, tanto que no meio da “aula” eu disse que não tinha mais interesse em continuar de tão p… Eu não preciso convencer três pessoas que nem me conhecem, mas já aparentam me odiar, para arrumar um trabalho. Recuso fingir, recuso posar, recuso mascarar. Um dia desses li numa dessas listas de quase-piadas sobre o que não fazer durante um curso de pós graduação, e uma das dicas dizia algo do tipo que não deveríamos nos indispor com nossos “superiores”. Sério, gente? Não, ninguém não precisa ser humilhado para se tornar intelectual. Ninguém precisa sangrar por dentro para se tornar um intelectual. Cara, a humilhação é opcional, e se ela dói nos outros e é dispensável, por que seguimos naturalizando essa violência silenciosa? Ah, porque professor fulano que tem dez pós-doutorados,e fala dez línguas, e leu todos os livros do Foucault. Ora, também importa dizer que se alguém teve a oportunidade de fazer alguns pós-doutorados, falar algumas línguas e ter acesso a todos os livros do Foucault, essa pessoa se encaixa num padrão classe média alta ou rica, ou seja, classe dominante. Seria possível se divorciar da áurea dominante enquanto intelectual? Claro, porém quando a arrogância e a opressão tomam lugar, fica claro que o divórcio é só retórica.

E por que essas práticas são tão cotidianas? Longe de mim generalizar essa questão, mas não é possível negar. Existe sim uma cadeia hierárquica de humilhação: o professor humilha o estudante de doutorado, que humilha o de mestrado, que humilha o de graduação, além das variantes e cortes transversais. Colegas que comparam notas, que escondem informações para se beneficiar sozinhos, que estão em constante competição. Pra que isso? Ajuda em que? Parece um paradoxo, mas a universidade é muitas vezes um espaço desumanizante, e isso é muito triste, principalmente nos departamentos de ciências sociais. E isso não é exclusividade da universidade brasileira. De minha experiência, a maioria das universidade na Holanda e no Reino Unido tratam os estudantes como aqueles ratinhos soltos em tubos em competição para ver quem chega primeiro. Além, é claro, de priorizar os cifrões e tolher qualquer anseio de anti-capitalismo ainda que alguns professores se digam inspirados em autores anarquistas, marxistas ou coisas afins.

Estudantes, professor@s, funcionári@s, mas antes de tudo somos pessoas sociais e necessariamente precisamos de outras pessoas, e viemos/temos condições sociais e posições políticas diferentes, e isso não pode ser justificativa não-declarada para ataques pessoais que ferem a dignidade humana. Não se pode mais aceitar isso calado, naturalizar a opressão que atinge a produção de ideias, que tolhe aqueles que pensam a teoria como base do salto para pensar o mundo, e não como cárcere de ideias. A universidade e seu lugar em nossas vidas não são hegemônicos. Que se faça sentir e ver uma antropologia que liberte nossas ideias dos modelos de dominação, e não que os reproduza! Que se erga forte uma antropologia transformadora, não-domesticada, não alienante, não podadora. Por uma antropologia mais anarquista, no sentido de por abaixo esses traços violentos de autoritarismo, de competitividade, de falta de solidariedade, de falta de humanidade.

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