Por uma academia menos autoritária e mais anarquista

Uma boa parte das pessoas que embarca na vida acadêmica sonha em mudar o mundo a partir de um artigo, de um projeto ou dissertação. Esses não necessariamente se configuram como “produção de conhecimento”, mas evidências de um processo de formação intelectual, e obviamente pessoal. Não quero dizer com isso que pesquisas e escritos não sirvam de nada, embora algumas realmente não sirvam a nenhum projeto necessário, posto que alguns pouc@s intelectuais se coloquem a serviço de um projeto maior de anulação das opressões e desigualdades sociais. Enfim, gostaria de focar um ponto: existe na academia uma estrutura de níveis de arrogância e perpetração de violência “simbólica” a que tod@s estamos expostos no decorrer de nossas “carreiras” (pode-se notar que boa parte das aspas estão em expressões em tese comuns, mas aqui as considero como parte da retórica arrogante de alguns acadêmic@s ). Qual é a contribuição para o desenvolvimento intelectual que as humilhações cotidianas que muit@s enfrentam nos departamentos de universidade trazem ? Nenhuma. Estamos dando continuidade a um círculo vicioso que produz e reproduz opressão. Isso é compreensível: por mais que celebremos avanços democráticos, o autoritarismo e vaidade ainda são valores que cortam a sociedade, e obviamente a universidade, em diferentes níveis. Por que temos de ser humilhad@s em bancas, em concursos, em relações em geral dentro do ambiente acadêmico? Se existe uma prerrogativa de aplicação de poder, está lá a indiferença ao outro enquanto ser social. A única vez que tentei fazer um concurso para professora numa universidade, antes mesmo de abrir a boca, a banca já me olhava como se eu fosse um saco de lixo rasgado e fedendo no meio da sala. Desculpa o drama aí, mas os não-ditos também nos afetam, e foi exatamente assim que me senti, tanto que no meio da “aula” eu disse que não tinha mais interesse em continuar de tão p… Eu não preciso convencer três pessoas que nem me conhecem, mas já aparentam me odiar, para arrumar um trabalho. Recuso fingir, recuso posar, recuso mascarar. Um dia desses li numa dessas listas de quase-piadas sobre o que não fazer durante um curso de pós graduação, e uma das dicas dizia algo do tipo que não deveríamos nos indispor com nossos “superiores”. Sério, gente? Não, ninguém não precisa ser humilhado para se tornar intelectual. Ninguém precisa sangrar por dentro para se tornar um intelectual. Cara, a humilhação é opcional, e se ela dói nos outros e é dispensável, por que seguimos naturalizando essa violência silenciosa? Ah, porque professor fulano que tem dez pós-doutorados,e fala dez línguas, e leu todos os livros do Foucault. Ora, também importa dizer que se alguém teve a oportunidade de fazer alguns pós-doutorados, falar algumas línguas e ter acesso a todos os livros do Foucault, essa pessoa se encaixa num padrão classe média alta ou rica, ou seja, classe dominante. Seria possível se divorciar da áurea dominante enquanto intelectual? Claro, porém quando a arrogância e a opressão tomam lugar, fica claro que o divórcio é só retórica.

E por que essas práticas são tão cotidianas? Longe de mim generalizar essa questão, mas não é possível negar. Existe sim uma cadeia hierárquica de humilhação: o professor humilha o estudante de doutorado, que humilha o de mestrado, que humilha o de graduação, além das variantes e cortes transversais. Colegas que comparam notas, que escondem informações para se beneficiar sozinhos, que estão em constante competição. Pra que isso? Ajuda em que? Parece um paradoxo, mas a universidade é muitas vezes um espaço desumanizante, e isso é muito triste, principalmente nos departamentos de ciências sociais. E isso não é exclusividade da universidade brasileira. De minha experiência, a maioria das universidade na Holanda e no Reino Unido tratam os estudantes como aqueles ratinhos soltos em tubos em competição para ver quem chega primeiro. Além, é claro, de priorizar os cifrões e tolher qualquer anseio de anti-capitalismo ainda que alguns professores se digam inspirados em autores anarquistas, marxistas ou coisas afins.

Estudantes, professor@s, funcionári@s, mas antes de tudo somos pessoas sociais e necessariamente precisamos de outras pessoas, e viemos/temos condições sociais e posições políticas diferentes, e isso não pode ser justificativa não-declarada para ataques pessoais que ferem a dignidade humana. Não se pode mais aceitar isso calado, naturalizar a opressão que atinge a produção de ideias, que tolhe aqueles que pensam a teoria como base do salto para pensar o mundo, e não como cárcere de ideias. A universidade e seu lugar em nossas vidas não são hegemônicos. Que se faça sentir e ver uma antropologia que liberte nossas ideias dos modelos de dominação, e não que os reproduza! Que se erga forte uma antropologia transformadora, não-domesticada, não alienante, não podadora. Por uma antropologia mais anarquista, no sentido de por abaixo esses traços violentos de autoritarismo, de competitividade, de falta de solidariedade, de falta de humanidade.

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Uma resposta para Por uma academia menos autoritária e mais anarquista

  1. Loli disse:

    Deixo uma pegada no chão, mode que tô sempre li seguindo. Beijo

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